terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vestido de noiva

ALAÍDE - Não tenho nada com isso! Ele me preferiu a você - pronto!
MULHER DE VÉU - Preferiu o quê? Você se aproveitou daquele mês que eu fiquei de cama, andou atrás
dele, deu em cima. Uma vergonha!
ALAÍDE (sardônica) - Por que você não fez a mesma coisa?
MULHER DE VÉU - Eu estava doente!
ALAÍDE - Por que então não fez depois? Tenho nada que você não saiba conquistar ou... reconquistar um
homem? Que não seja mais mulher - tenho?
MULHER DE VÉU (agressiva) - O que me faltou sempre foi seu impudor.

[...]


ALAÍDE (superior) - Pode dizer o que quiser. (irritante) Sou eu que vou casar, não é? Então não faz mal.
MULHER DE VÉU - Outra coisa: você está crente de que ele é só seu, não está?
(Silêncio superior de Alaíde.)
MULHER DE VÉU - Está mais do que crente, é claro! Pois olhe: sabe quem é esse namorado que eu
arranjei? Tantas vezes vim conversar com você sobre ele! Contar cada passagem, meu Deus! (com ironia) pois
olhe: esse namorado era seu noivo. Seu noivo, apenas!
ALAÍDE (cortante) - Mentira! Não acredito!
MULHER DE VÉU (superior) - Então é - então é mentira!

[...]


(Batem na porta.)
MULHER DE VÉU (exasperada) - Oh! Meu Deus, será possível?
ALAÍDE (sombria) - Então você deseja minha morte!
PEDRO (da porta) - Alaíde!
MULHER DE VÉU (noutro tom) - Pedro!
ALAÍDE (noutro tom) - Já vai, Pedro (para a mulher de véu, ríspida). Vá abrir.

[...]


MULHER DE VÉU - Até vou-me embora!
ALAÍDE (cheia de ironia) - Ela é muito escrupulosa, Pedro! Você não imagina!

[...]


MULHER DE VÉU (com lentidão calculada) - Você se lembra do que eu lhe disse, Alaíde?
PEDRO (curioso) - O que foi?
ALAÍDE - Nada. Coisa sem importância.
PEDRO (perverso, para a mulher de véu) - Você tem namorado?
MULHER DE VÉU (fria) - Por quê?
PEDRO (cínico) - Por nada. Seu gênio é tão esquisito!

[...]


(Trevas. Luz sobre Alaíde e Clessi, poéticos fantasmas. Iluminam-se as duas divisões extremas do plano da
realidade. À direita do público, sepultura de Alaíde. À esquerda, Lúcia, vestida de noiva, prepara-se no
espelho. Arranjo da Marcha Nupcial e da Marcha Fúnebre.)

[...]


LÚCIA (estendendo os braços) - O bouquet.
(Crescendo da música, funeral e festiva. Quando Lúcia pede o bouquet, Alaíde, como um fantasma, avança em
direção da irmã, por uma das escadas laterais, numa atitude de quem vai entregar o bouquet. Clessi sobe a
outra escada. Uma luz vertical acompanha Alaíde e Clessi. Todos imóveis em pleno gesto. Apaga-se, então,
toda a cena, só ficando iluminado, sob uma luz lunar, o túmulo de Alaíde. Crescendo da Marcha Fúnebre.
Trevas.)

FIM DO TERCEIRO E ÚLTIMO ATO





[Nelson Rodrigues]

2 comentários:

Dayane Abreu disse...

putz.

L.C. disse...

ontem, no samba, comentávamos que eu fui alfabetizada com nelson rodrigues. época de vestibular?