quarta-feira, 2 de julho de 2008

She's so high; high above me

Passou a mão no espelho para afastar a névoa da água quente. Seus olhos castanhos fitaram outros, mais embaçado e ainda mais sem vida que os seus próprios. Mechas escuras do cabelo liso mal preso lhe caíam pelo rosto, e ela lembrou que estava a quase um mês dizendo que iria cortá-los. Escovou os dentes com força desnecessária, pensando que talvez devesse fazer alguma mudança radical. Havia uma pequena mancha vermelha que ela não soube explicar perto da torneira e que limpou sem muita dificuldade. Consertou a toalha sobre o corpo, e foi ao quarto, com o intuito de vestir-se.

Foi automaticamente ao guarda-roupa, sem dar muita atenção ao restante do quarto, meticulosamente arrumado à exceção da sua própria cama, inexplicadamente de casal. Às vezes, antes de dormir, ela costumava buscar explicações para o fato de o outro lado estar sempre vazio. No decorrer do sono, inconscientemente agradecia: nada como poder se espalhar à vontade. Sempre gostara de espaço. Tirou do armário meia dúzia de blusas, que aparentemente eram iguais senão pelas cores, em sua maior parte tons pastéis. Virou-se para colocá-las sobre a cama, e foi obrigada a prender a respiração.
Sobre o leito estava seu próprio corpo, desnudo, manchando os lençóis brancos de sangue. Tremendo da cabeça aos pés, mantendo os olhos bem abertos, ela deixou que as blusas caíssem de suas mãos. Os acordes de uma antiga banda britânica – tocando no som da sala - perpassavam-lhe a pele, e ela fechou os olhos para tomar ar. Abriu-os lentamente, fixando-os sobre a cama.

Não havia nada, ali, além dos lençóis retorcidos após sua noite de sono. Soltou um suspiro e abaixou-se para pegar as peças que deixara cair, amaldiçoando sua mania de acordar ao amanhecer. Isso estava fritando seus miolos! Ao se levantar, viu no espelho o reflexo da pequena cruz de prata que carregava no pescoço, presente de sua avó. Ganhara-a assim que perdera os pais e que fora morar com a ‘Nana’. Rezou despreocupadamente uma Ave-Maria, mais pela lembrança da avó que pela “visão”, enquanto vestia uma das blusas sobre a cama. Pela primeira vez em tempos, usava uma cor forte. Escolhera uma veste preta.

Terminou de se arrumar com a habilidade típica de quem faz de algo rotina, e tomou uma caneca de seu habitual café-com-leite. Detestava café preto logo cedo. Desligou o som, colocou o casaco – era inverno, e chovia todas as manhãs -, alçou sua bolsa e desceu rapidamente os degraus de seu prédio sem elevadores. Esperou cerca de cinco minutos no ponto, enquanto lia seu romance da década de 40, e pegou o ônibus que a levaria ao trabalho. Era sempre o mesmo, desde que começara com aquele emprego de secretária numa empresa de exportações. O ano era 1998.

Habitualmente, a leitura de seu livro permanecia em curso durante o trajeto, mas hoje, como nos últimos dias, ela resolveu olhar para o lado de fora do veículo. Árvores, pessoas, prédios, pessoas. Não é de se admirar que a essa hora a rua já esteja cheia, todos têm seus afazeres. O ônibus parou, coisas do trânsito. Do lado de fora, uma banca de jornais. JOVEM DESCOBERTA MORTA. Desde que se lembrava de começar a olhar pela janela, o ônibus parava por ali, e havia sempre uma notícia de assassinato ou suicídio. Fez o sinal da cruz sobre a testa. Mais vinte minutos e chegava ao seu destino.

Por, em cinco anos, ser sempre a primeira a chegar, ela era a responsável por abrir o escritório. Seu patrão chegaria a cerca de dez ou vinte minutos, e, como acontecia nos últimos dias, traria junto seu filho. Queria que ele aprendesse o ofício antes de se tornar um filhinho de mamãe qualquer, dizia. O rapaz, com nome de origem italiano, tinha a mesma idade que ela, talvez fosse um ou dois anos mais velho. O tempo de fazê-lo já passou, ela pensava, e não achava isso só com base na idade dele. Desde que entrara para o negócio da família, ele vinha cantando-a das mais diferentes formas. Não que ele fosse feio. Era moreno, fazendo jus ao nome, tinha traços sensuais e boa constituição física. Só não era o seu tipo de homem.

Por volta das dez o filho de seu chefe sentou-se perto dela, a fim de puxar conversa. Distraída arquivando alguns papéis, ela tomou um susto e prometeu a si mesma que aquele seria o último dia que ele a importunaria. Custasse o que tivesse que custar. Nunca foi de deixar que a importunassem. Sentiu uma dor no ombro que a deixou tonta. Teve que se esquivar da tentativa pálida de seu galanteador pessoal de segura-la. Foi até a copa e serviu-se de uma xícara de café. Aquela dor devia ser efeito do ato repetitivo de arquivar fichas. Foi até a sala do chefe e pediu para ser liberada mais cedo. Hoje ela só daria meio – expediente, de qualquer forma.

Fora do escritório, aproveitou para fazer umas compras de que precisava. Roupas íntimas, comida, e talvez um novo livro ou disco. Não podia se exceder nas compras, o salário que recebia não era tão grande assim, e ela não tinha parentes a quem pedir emprestado. Era órfã desde os dez anos, E sua avó, uma senhora extremamente bondosa e religiosa, morrera há quatro.

A Nana, ela pensava, não se orgulharia realmente de vê-la agora. Ao contrário da educação católica que recebera, ela nunca ia à igreja, e raramente rezava em casa. No bem da verdade, não era mais a menina que a avó conhecera. Era uma mulher – jovem, decerto – que passava a maior parte do seu tempo livre tentando não fumar e ouvindo músicas que a avó decerto não aprovaria. Independente do que a avó diria se estivesse viva e à exceção das músicas que ouvia, ela mesma não se orgulhava de quem era. E ainda havia aquele mimado para lembrá-la disto várias vezes ao dia. Cada cantada sua era uma punhalada. De um punhal sem fio de corte.

Apesar de seus horários regulares, e de já ser meio-dia, ela não sentia fome. Foi até a livraria de costume, mas não se interessou por nenhum dos títulos. Deve ter ficado realmente pálida, quando, andando por entre as prateleiras, sentiu uma forte dor no ventre, pois um dos atendentes fê-la sentar e tomar um copo d’água. Com um pouco de vergonha e sem saber explicar de onde tinha vindo a dor, ela agradeceu e saiu, sem levar nenhum volume. Na loja de discos a dor se repetiu, mas dessa vez na virilha. Ela saiu com um exemplar do The Smiths.

Quando chegou em casa, eram aproximadamente três horas. Fez um macarrão rápido enquanto punha o disco novo para tocar, e fez uma arrumação rápida em sua casa. Quando a comida ficou pronta, resolveu comer na cama: uma antiga mania de menina. Saiu derrubando molho por todo o caminho da cozinha ao quarto, deixando, assim, um rastro vermelho em seu encalço.

Às quatro, quando já tinha limpado sua pequena “arte” e lavava os pratos, ouviu a campainha tocar. Abriu a porta da cozinha mesmo, era a mais perto. Viu o filho de seu chefe. Deu um suspiro resignado, e perguntou-o o que fazia ali. Ele, com uma caixa nas mãos e um sorriso sacana no rosto perguntou se era mesmo amanhã o aniversário dela. Canalha, ela pensou, mas teve que responder que sim. Trouxe um bolo, não vai me deixar entrar? Sua vontade era dizer não, que fosse embora e que a deixasse em paz, mas o canalha já deixara subentendido que faria com que o pai a demitisse caso ela continuasse a refutá-lo, e ela não podia se dar ao luxo de perder o emprego. Mas daria um fim naquilo ainda hoje. E então? Entra – ela disse, se afastando, para que ele pudesse passar pelo vão da porta. Ele agiu rápido, para um cara da alta sociedade.

Largou o bolo sobre a pia e tentou agarra-la. Ela tentou impedir, afasta-lo. Chamou por seu nome algumas vezes, e ao ver que ele, com seu corpo pesado, não sairia de perto por pura vontade, deu-lhe um chute onde sabia ser bem doloroso. Vadia! Ela respirava ofegante e pediu que ele saísse de sua casa. Ele tentou agarrá-la novamente, levando outro chute. Cego de raiva, ou talvez apenas ávido por sexo, ele tentou desacorda-la com o primeiro instrumento que conseguiu alcançar. Era uma chaira. Ela tinha acabado de afiar algumas facas. Em vez de golpeá-la na cabeça, como pretendia, o afiador fugira-lhe da mão, e a acertara no ombro, adicionando à força imposta pelo rapaz o peso do próprio instrumento. Cega pela dor causada pela fratura da Clavícula e pela separação do Úmero e da Escápula, esse foi o último momento consciente dela.

Se ela tivesse podido ler o jornal cuja manchete vira naquela manhã, veria que não se falava de um assassinato qualquer. Era de seu assassinato.






JOVEM DESCOBERTA MORTA


Encontrada morta, na manhã da véspera de seu aniversário, a jovem Patrice Mayer. O corpo foi encontrado no pequeno apartamento da moça, à rua Pedro Cabral, transversal à uma importante avenida da cidade, sobre sua cama. A moça foi esfaqueada cerca de 15 vezes, e há indícios de estupro. Segundo o investigador responsável, que pede para não ter o se nome divulgado, as agressões começara na cozinha. Nada foi levado do apartamento. O principal suspeito é Bruno Margo, herdeiro do complexo de importações Margo, que foi visto entrando no prédio no dia do crime. A jovem faria 23 anos. Mais na página 5.

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Off.: Explicações pelo texto:
1- Essa história vem me ronadando há dois dias. Não saiu tão boa quanto na minah cabeça ^^'
2- primeira história que não é um romancezinho bobo.. gosto disso :}
3- Porque o cara é Bruno, e porque negócios de importação: eu acabei de ler " O Poderoso Chefão" (muito bom, por sinal), e uma das personagens é Bruno Tattaglia, que, apesar de ser um cara da "Família" como cafetão, mais me pareceu um filhinho de papai atrás de uma ocupação. E a Família do Don Corleone tem como negócio legal a importação de azeites.
4 - o ano de 1998 e o primeiro nome dela me surgiram do nada.
5 - o ano de 1998 é, numerológicamente interessante. Resulta em nove, e isso quer dizer "fim de um ciclo", segunda a wikipedia. Então, voilá!
6 - a intenção original não era ela ter "presságios" da morte, mas sim de ser o "espírito"dela revivendo o último dia. Não ocnsegui fazer.
parei :x
qualquer coisa, só perguntar.

5 comentários:

danny disse...

"primeira história que não é um romancezinho bobo.. gosto disso :}"

1 - gosto dos seus romancezinhos bobos;
2 - queria que ela casasse com o Bruno e ficasse rica. ele podia ser bonzinho;
3 - é uma história triste que não me deu vazio, fique feliz com isso.

^^

Bruno disse...

Rá, eu sabia que o cara era Bruno!

Putz, tava esquecendo como é legal ler seu blog. Andei meio sumido, foi mal!

(e eu li o poderoso chefão faz uns dois meses, livro legal pra caramba!)

Rafa disse...

Putz, curti o seu blog, você escreve bem! :D

superlativa disse...

pera aê, esse bruno existe?

Stephanie disse...

Any, confesso que não li seu post, passo depois, com calma, para.

vim mesmo pra avisar que indiquei seu blog para um prêmio - passe lá e pegue seu selo =)

beijo beijo