sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O paraíso está no ocidente.

O sol era de fim de tarde – de olho dir-se-ia que eram umas quatro e meia – e a estrada, milagrosamente, era lisa. O carro não era um conversível, como sempre sonhara quando nova, mas as janelas da frente abertas faziam a vez de teto retrátil, ao deixarem o vento entrar. O ponteiro da velocidade passava de cem, e ela dirigia em direção ao oeste, como se quisesse alcançar o pôr do sol, à hora em que esse se aproximasse.

No banco de trás, uma pequena criança adormecida.A música alta não a acordava. Já havia se acostumado à mãe.

Qualquer carro que se aproximasse era motivo pra olhadas tensas pelo retrovisor. O que estava fazendo era errado, mas era o único jeito.Tinha estado enterrada num relacionamento que no começo era só flores, e que tinha se degradado desde o nascimento do filho. Por medo de perdê-lo, fugira. Mas não fugia só do ex-marido.

Fugia da família, do conforto, da vida cômoda e monótona que sempre levara. Fugia de todas as vezes que abaixara a cabeça, de todas as vergonhas que passara. Fugia da mãe que não queria ser para seu filho, fugia dos fantasmas solitários, fugia de suas marcas, seus espectros. De sua sombra. Fugia. Depois daquela madrugada, ao dia anterior, em que pegara a estrada, seria outra. Seria a verdadeira pessoa que sempre fora. Seria a verdadeira mãe que seu filho merecia. Seria a mulher que postergara ser.

Como que por adivinhação, o pôr do sol chegara, tal qual seu destino.

-A gente já chegou, mamãe?

Um comentário:

[o eremita] disse...

você tem o dom.
simplesmente talentosa.