quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Como uma virgem anunciada, sim. Por ele me ter permitido que eu o fizesse enfim sorrir, por isso ele me anunciara. Ele acabara de me transformar em mais do que o rei da Criação: fizera de mim a mulher do rei da Criação. Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doe demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto — uivaram os lobos, e olharam intimidados as proprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.

[ penúltimo parágrafo de Os desastres de Sofia - Clarice Lispector. ]

[porque, quando devo estudar literatura, eu o faço. E o faço até demais... E porque o livro Os desastres de Sofia, da condessa de Ségur, marcou minha infância. Tinha um velho exemplar, quase que caindo aos pedaços, que li e reli até perder as contas...]

Um comentário:

Lobo disse...

Interessante, loba....